Trabalho de homem?
- Mônica Maria

- 13 de abr. de 2021
- 6 min de leitura
A gente que nasce mulher carrega, desde muito cedo, uma sacola de normatizações e costumes socialmente disseminados que, com o passar dos anos, se permitirmos, vão se tornando um peso em nossa vida e nos privam de experimentarmos o melhor de nós mesmas. E o mais absurdo é que, em algum momento da história, um pequeno grupo definiu as regras do jogo e as impôs para o restante da sociedade, sem chance de mudar algum ponto. É assim que tem que ser e pronto.
Por muitos e muitos séculos aceitamos, caladas, segurando a dor do peito, da porta pra fora e esvaziando um pouco dessa dor em nossos travesseiros. Até hoje ainda existem mulheres adormecidas servindo a homens também adormecidos. E é nosso papel, enquanto grupo de empoderamento feminino que somos, trazer luz a determinados aspectos. Um desses aspectos diz respeito ao trabalho, seja enquanto carreira ou enquanto atividade informal.
Quantas vezes na nossa vida nós deixamos de aprender algo que sentimos vontade ou algo que por um momento acreditamos ser capazes de fazer, simplesmente porque nos foi dito que aquela atividade era coisa de homem? Eu mesma me lembro de quando era adolescente e queria fazer aula de luta e minha mãe se opôs pela mesma razão citada na linha anterior. Meu irmão fez, eu não.

Foto: Freepik / Racool_studio
Quantas vezes em nossa vida de adulta, pagamos caro ou somos passadas a perna porque abraçamos a ideia de que mulher não entende de mecânica, elétrica ou obra, por exemplo? Eu acho péssimo quando vou a uma loja de material de construção e o vendedor faz alguma piadinha e tenta me colocar um colar de asno, antes mesmo de eu terminar de falar o que quero. Isso desperta em mim o dever de ir embora, causando uma venda a menos para o patrão desse atendente.
Mas o bom da vida é que ela é fluida demais para ser totalmente represada. E aí, minha gente, as exceções da regra passam a trazer novas possibilidades pra quem se sente incomodada, mas ainda não sabe como romper os grilhões que aprisionam a alma. Olha só que incrível a história da Isabel (ou Bel). Ela tem 66 anos e nasceu na Vila São José, uma antiga favela de Belo Horizonte, que hoje não existe mais. Seu pai era mestre de obras e tinha o sonho que seus filhos conseguissem estudar. Bel, como uma exceção à regra, formou-se como Engenheira Civil pela UFMG, em 1982. Nessa época, as mulheres eram cerca de 10% em uma turma de alunos. De acordo com ela, o fato de ter nascido em uma vila a preparou bem para as batalhas da vida, fazendo com que conseguisse se defender diante de qualquer ameaça. “Ter sobrevivido ao ambiente de onde saí, me preparou para a vida. Realmente o preconceito contra as mulheres no ambiente da faculdade era algo presente. As mulheres na engenharia sempre precisaram estar um palmo acima da média, para se afirmar e conseguir exercer a profissão”, comenta.
Conseguir sobressair em um ambiente predominantemente masculino é uma grande prova a se vencer. Ainda mais quando quem deveria dar o exemplo, é o primeiro a tentar te derrubar. “Os professores eram todos homens. Muitas vezes, as alunas eram motivo de gozação, ouviam coisas infames e ridículas. Para mim, isso só servia para dizer quão fracos eram aqueles homens”, afirma Bel, que complementa: “Tinha um professor que quando via uma mulher de sandália em uma aula prática, mandava ela andar no atoleiro, pra provar que ela tinha que usar bota numa área de construção civil. Uma vez, em uma obra de quatro ou cinco andares, ele me mandou subir pelo andaime até o alto. Eu disse a ele que não ia subir. Na sequência ele comentou que mulher é muito difícil, que escolhe uma profissão e depois não dá conta de exercer, e aí me perguntou por que eu não iria subir. Respondi que não ia subir pois estava me formando como engenheira e estava aprendendo a me tornar uma boa coordenadora, pra poder fazer uma equipe de operários subir por mim. Aí ele nunca mais fez piadinha comigo”.
Fotos: Izabel Chiodi
A partir da experiência vivida, Bel acredita que não existe profissão de homem ou profissão de mulher. “Isso é criação de uma sociedade machista, patriarcal e patrimonialista, que gosta de reservar lugares para aquelas pessoas julgadas melhores do que as demais. Pra mim, todas as profissões podem ser ocupadas por homens ou por mulheres, tanto um quanto o outro tem limitações e precisam se adequar às exigências do trabalho. O que importa na escolha de uma profissão é fazer aquilo que gosta, aquilo que ama. Assim, você será uma excelente profissional”, conclui.
Bel não subiu no andaime porque não era da natureza de sua carreira. Um homem engenheiro também não subiria. Mas garanto que se for preciso pra mexer na sua obra, a Cris subiria. Ela tem 40 anos, mora em BH e trabalha como artesã, fazendo laços para enfeitar cabelos. Nas horas vagas, Cris é a Pereirão, como dizem as suas amigas, uma vez que assume várias atividades em uma obra, fazendo um serviço muito bem feito. “Faço uma massa, levanto uma parede, furo tubulão, minha cozinha foi eu que fiz. O que faço, é por questão de economia, porque não tenho condição de pagar um pedreiro para fazer tudo pra mim”, comenta ela, que por ser uma pessoa curiosa, aprendeu a fazer de tudo um pouco nas áreas de construção, elétrica, hidráulica e pintura.
Essa habilidade com obra começou quando a Cris tinha 20 anos e a sua mãe comprou a casa onde ela vive hoje. “Foi a necessidade que me fez aprender. A gente não tinha dinheiro pra pagar pedreiro e ajudante. Então, eu trabalhava no período da tarde e, na parte da manhã, eu vinha pra obra pra ajudar o pedreiro. Sou muito perguntadeira, então eu não aceitava estar perto de uma pessoa e não perguntar pra aprender. E assim, perguntando e colocando a mão na massa, eu fui aprendendo”, diz Cris, que também aprendeu muita coisa com um irmão que é pedreiro. Ela mora há 16 anos, na casa que ajudou a construir. De lá pra cá, suas mãos já transformaram muita coisa no lugar.
Para Cris, toda mulher deveria aprender o "básico do básico", mesmo que não seja para trabalhar com isso. “É muito importante saber como funciona a dinâmica de uma obra, isso te traz segurança e faz com que você não seja passada pra trás, como eu já vi acontecer muito por aí. Aqui em casa, isso não acontece. Muitas vezes um serviço que o pedreiro ia gastar dois meses pra fazer, aqui ele acaba em 20 dias, porque eu fico em cima e adianto tudo o que dá pra adiantar”, fala. E essa lição, ela já está ensinando para a sua filha Sofia, de 9 anos, que já adora ajudar a mãe com a obra da casa. “Eu acho maravilhoso eu ser exemplo pra minha filha em um serviço pesado como esse. Eu não estou deixando uma filha fresca nesse mundo, né? Trato ela como uma princesa, mas também ensino a ela as coisas básicas do dia-a-dia. Ela me chama de X-Tudo, porque ela vê que eu faço de tudo um pouco e não faço corpo mole”, comenta.
Fotos: Acervo Cris
Cris está de parabéns por ensinar à sua filha, desde cedo, que as barreiras do preconceito contra a mulher devem ser quebradas da mesma forma que se quebra um muro em uma obra, pra poder construir algo novo no lugar. “Boba é a mulher que acha que serviço de obra é coisa de homem e besta é o homem que acha que só eles têm que fazer isso. Isso pra mim é machismo. Obra é pra quem se interessa, pra quem não quer levar ferro e é pra todo mundo que queira aprender. Eu aprendi na minha vida que quem aprende não depende”, afirma ela, que ainda diz não ter medo de errar. “Eu tenho orgulho de mostrar o que eu fiz, mesmo que não esteja perfeito aos olhos de outras pessoas. Eu acho que não existe profissão de homem ou de mulher. Tem aquela profissão que você quer aprender e precisa aprender. Eu já vi homens que fazem laços maravilhosos. Seria muito feio da minha parte falar que laço é coisa de mulher. Não é coisa de mulher, é coisa de quem quer fazer, é de quem se interessa”, conclui.
E você, acha que existe algum serviço que não pode ser feito por uma mulher? Se sim, fala pra mim, gostaria de conhecer o seu ponto de vista. E, para todas aquelas que acreditam que nós podemos fazer o que quisermos fazer, sigamos firmes com o nosso propósito.
Um beijo e até o próximo texto.
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>Texto e diagramação: Mônica Veiga<
> Produção: Dalila Pires e Mônica Veiga<

















Amei as duas histórias cada uma em tempos diferentes né! Mas a garra da Bel e da Cris são extremamente inspiradoras demais. Eu tenho medo de mexer com energia elétrica,mas mesmo levando uns choques eu nunca desisti e digo o lugar da mulher é aonde ela quer estar. Pedreira, marcineira,pintora de parede,devemos e podemos ousar.