A quarentena como veículo de transformação
- Mônica Maria

- 30 de mar. de 2020
- 3 min de leitura
Até outro dia, tudo ia bem, as mesmas reclamações de sempre: aquelas que não nos tiram da nossa zona de conforto. Dois mil e vinte chegou há pouco e, com ele, as mesmas promessas difíceis de serem cumpridas, mas bola pra frente, a gente leva do jeito que dá. Afinal, a vida no Brasil só começa depois do carnaval, não é mesmo?
E no dia em que o carnaval acabou, o povo brasileiro (no qual me incluo), se deparou com uma quebra de padrão, uma mudança na rotina, não só nossa, mas que neste momento em que vos escrevo, atinge, em alguma medida, quase todos os habitantes do planeta. Essa mudança atende pelo nome de Coronavirus, COVID-19, SAR-CoV-2 (ou o caráiaquatro, como gostaria de dizer, mas não o digo por buscar diariamente agir como filósofa e, por isso, enxergar a situação da melhor forma possível.

Crédito foto: @brgfx
Agora, por exemplo, estou sentada, rodeada de flores e borboletas de várias cores, ao som de uma música de Mozart, a qual não sei o nome). Confesso que há alguns dias, o pânico tentou me rondar, mas digeri-o com uma boa dose de palavras de sabedoria. E vamos que vamos. Viver a quarentena, derivada de um momento único na história recente da humanidade, da melhor maneira. Meu desejo é chegar viva ao século XXII e, quem sabe até lá já tenhamos encontrado de forma clara uma explicação para o que está acontecendo hoje.
Por enquanto, muitas incertezas e emoções afloradas. O sentimento é de que não há cartilha no mundo capaz de nos ensinar a lidar com o fato. Será então que o X da questão não seria justamente o de não colocar a explicação apenas dentro do pote da razão concreta? Aquela que se limita aos fatos da natureza sensível, ou seja, que se pode tocar e medir com as ferramentas por nós já inventadas?
Não seria este um momento em que a Terra nos coloca para fazer uma prova final (daquelas que valem 100 e a gente precisa tirar pelo menos 60), pra ver se estamos aptos a passar de ano? Vejo as abelhas, as galinhas, o gato e os cachorros e, para eles está tudo bem. Afinal, eles vivem um dia de cada vez, fazendo o que lhes compete fazer. E aí penso que nós, humanos, pouco fazemos o que é realmente nosso, pelo dever de assim termos nascido. Pouco manifestamos a cortesia, a gentileza, a atenção para com as pessoas, os animais e os ambientes; pouco agimos com sobriedade, justiça, coragem (que, em sua origem, é diferente de ousadia e bravura), pouco exploramos nossos talentos e aptidões, que são ocultados pela lama da preguiça, da vergonha, da cobiça, do medo e de muitas outras condições que alimentamos, dia após dia.
Tudo isso me faz crer que o vírus maior é o vírus do egoísmo. A satisfação dos próprios desejos como objetivo primário pode fazer um sistema desabar. Seja por meio de ditadores e demagogos que deixam suas populações desassistidas, seja por meio do próprio povo, que muitas vezes é incapaz de assumir as rédeas da própria vida e também de estender a mão e oferecer ajuda a quem precisa.
Talvez isso ocorra por estarmos carentes de bons referenciais e de verdadeiros heróis. A extrema valorização ao materialismo faz com que nossa sociedade idolatre os pseudo olimpianos, aqueles que nutrem os veículos de comunicação de massa e nos fazem consumir ainda mais, como disse Edgar Morin. Isso faz com que nos tornemos incapazes de enxergar que podemos ser os heróis e heroínas de nossa própria vida, é preciso apenas colocar cada vez mais altruísmo no lugar do egoísmo.
Epicuro acreditava que amizade e liberdade são as principais fontes de felicidade do homem. Então, nesses dias em que estamos com nossa liberdade de ir e vir comprometida, enxergo que somos todos convidados a uma reclusão com potencial transformador. Para mim, o melhor a se fazer neste instante é trabalhar a força interna para retirar as camadas de lama que encobrem nossas virtudes. Como? Com disciplina e mais disciplina, com amor e alegria. Se a humanidade está doente, podemos dizer que ela está de recuperação. Sendo assim, na hora que esse surto se for, será como a sensação de dever cumprido para com a prova final, junto da alegria compartilhada com nossos amigos, por termos passado de ano. Agora mais fortes e aptos para seguir a diante.
Muita saúde para vocês e...

Crédito foto: Dalila Pires
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