Dia da Sogra
- Mônica Maria

- 28 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Será que Eva foi uma má sogra? Não sei se a Bíblia teria uma resposta para nos dar, mas imagino que o conceito pejorativo de sogra se estende por séculos em nossa história. Seria então uma inversão do complexo de Édipo a partir da maturidade da prole? Se Freud fosse vivo, tivesse perfil no Instagram e abrisse pra perguntas eu poderia jogar essa lá. O fato é que sogras existem e têm até um dia dedicado exclusivamente a elas (para gosto ou desgosto de noras e genros). E esse dia é hoje: 28 de abril. Acabo de pensar aqui que se o comércio perceber essa data como uma potencial fonte de lucro a visão da bruxa má acaba em dois tempos. Afinal, o capitalismo cria incontáveis modelos de vida.
Essa matéria aqui, da Superinteressante, abordou o tema e me fez relembrar inclusive, do ciúme que Afrodite sentiu da bela Psiquê, por ter ganhado o coração de seu filho, Eros. Ou seja, a visão da sogra que incomoda é muito antiga mesmo (apesar de que o mito é, na realidade, uma figuração para aspectos de desenvolvimento da nossa própria consciência).
Nas pesquisas sobre esse assunto, acabei descobrindo que sogras causam conflito em 26% dos casais brasileiros, sendo que o conflito maior gira em torno da figura da sogra com a nora (link matéria). Talvez o incômodo perpasse o fato de pensar que uma outra mulher vai cuidar de seu filho. Aquele filho cujo bumbum recebeu bastante talco quando era um bebê. Essa situação é muito bem ilustrada pelo filme A Sogra (link trailer), que tem no papel de jararaca, a exuberante Jane Fonda.
Mas nem sempre esse conceito negativo vigora nas relações familiares. Existem sogras que se dão bem com seus genros e noras. Há aquelas que se dão tão bem, que acabam compartilhando suas vivências na internet e se tornando blogueiras, como é o caso da Laryssa e da Roseli, nora e sogra há oito anos.

Crédito foto: Papo de Nora e Sogra
As duas possuem um perfil no Instagram, chamado Papo de Nora e Sogra e postam lá assuntos do cotidiano, dicas de moda e beleza. Mas para que essa ação fosse possível, antes elas se deram bem uma com a outra. A boa relação existe desde que se conheceram. “Eu me apaixonei por ela na hora em que a vi. Carinha ótima e com energia. Simpática. Eu estava nervosa, mas ela, tagarela, me deixou à vontade. Parecia que já nos conhecíamos há anos”, diz Laryssa, a nora.
A recíproca, é verdadeira. Para Roseli, Laryssa é como uma filha e a união das duas é tão intensa, que se entendem apenas com um olhar. “Minha relação com a minha nora é uma relação de amor, respeito e união. Somos realmente amigas”, afirma a sogra. De acordo com Rosali, o principal fator que turva a imagem que as sogras têm, é o ciúme. “Claro que há outros motivos, mas acredito que o ciúme seja a causa que atrapalha as relações entre sogras e noras”, complementa.
Na busca por sogras gente boa, chegamos até a Ana, que é nora da Rosane, que é mãe da Bárbara. Ana e Bárbara estão juntas há um ano e meio e ela considera que possui uma ótima relação com a sua sogra. Inclusive, agora devido à pandemia da Covid-19, ela está ficando na casa de Rosane. Para Ana, o grande fator responsável pela visão negativa da figura da sogra é o patriarcado. “A sogra muitas vezes passa a ser uma barreira na vida do filho, impedindo seu relacionamento”, conclui Ana.
Crédito foto 1: da esquerda p/ direita Rosane e Ana (Mayara Laila) Crédito foto 2: da esquerda p/ direita Ana e Bárbara (Izabela Cosenza)
Patriarcado também é a definição dada por Tálisson, ao opinar a respeito da adjetivação negativa dada às sogras, que fazem com que inclusive engessem a noção de maternidade e feminilidade. “Acho que muitas relações já começam com uma ordem espectral de um script a ser seguido, uma verdadeira sombra, que muitas vezes impõem determinados tabus, zonas intocadas de silêncio, estereótipos e mesmo estigmas. Para mim, o problema da imagem da "sogra" tem raízes bem profundas na treta misógina e heteronormativa em que vivemos historicamente, determinando um papel para a "mulher do lar", zeladora da prole, de sua extensão com as famílias dos filhos, da manutenção de valores associados a nomes de família, status, etc”, afirma.
Crédito foto 1: Arquivo Pessoal Tálisson (Esq. p/ dir. José, Tálisson, Rosa Maria e Juliana) Crédito foto 2: Arquivo Pessoal Tálisson (Esq. p/ dir. José, Tálisson, Juliana e Rosa Maria)
Tálisson está há seis anos com José, que é filho da Rosa Maria. A relação que ele possui com sua sogra é tranquila desde o começo do relacionamento e eles sempre mantêm contato, seja por whatsapp ou por visitas frequentes. “Considero minha sogra uma grande amiga, uma pessoa muito interessante, aberta, sábia, acolhedora, ativa, que inspira muito o movimento, a disponibilidade para mudar e aprender coisas novas”, afirma.
Sempre gostamos de contar histórias por aqui em nosso blog, histórias que trazem uma chispa de amor, inspiração e esperança de dias melhores. Hoje foi a vez de mostrar que sogra nem sempre é um monstro de sete cabeças. Quando se tem uma relação sadia, com certeza todos os lados saem ganhando.
Então é isso. Terra, Fogo, Vento, Água, Coração! Vai, Planeta! Por um mundo mais justo, amoroso e sem piadinhas sobre sogra!
P.S: E já que é dia da sogra, mando um beijo pra minha.
Até o próximo texto.
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Produção e diagramação: Dalila Pires











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