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Morrer para nascer

Era o ano de 2007 quando algo ruim me aconteceu. Pra ser mais exata (dado o fato de que sou virginiana convicta, e orgulhosa disso!), 07 de setembro de 2007. Eu estava com 21 anos de idade, morava em Juiz de Fora/MG e, como era louca pela parentada (por parte de pai), sempre que podia, movia céus e terras para estar junto deles (aqui em Belo Horizonte/MG).


Foto: euzinha, 12 meses antes do início de uma das histórias mais tristes da minha vida.

Mas, antes de continuar a contar a história de uma das histórias mais tristes da minha vida, preciso fazer um breve adendo, para que vocês conectem alguns pontos essenciais. Caso contrário, a história de uma das histórias mais tristes da minha vida vai ficar sem pé nem cabeça, e isso é coisa de pisciana e não de virginiana, né, Mônica Veiga? :) Pois bem! Nasci em Belo Horizonte/MG, no inverno de 1985. Vivi com meus pais biológicos (Lúcia – “dona Maria” e João – “Jão”. Sim. Escolhi chamá-los assim.) até o ano de 1993, quando a Lúcia escolheu não viver mais com o João, por motivos que aqui não vêm ao caso. Sim. Essa parte pertence a eles, não a mim e nem a vocês! hehehe. Desde o divórcio deles, escolhi viver com o Jão. Ele, por sua vez, escolheu seguir a própria vida. E, desse modo, passei a viver aos cuidados de Maria e Helena.


Essas duas mulheres me deram teto, comida, roupa e, na medida de suas capacidades, amor. Sim. Minha família (nada) tradicional brasileira foi composta pelas figuras de duas mulheres. Digo “foi” pois já não é mais assim (mas parte dessa história é tema pra uma outra história que não pretendo contar, então concentre-se nessa que se segue!).

A convivência com essas duas mulheres me permitiu viver um amor diferente. Sim! Vó Maria e tia Nena., até meus 16 anos de idade desempenharam papel relevante em minha vida; papel esse que somente hoje, aos 35 anos de idade (com a ajuda da minha terapeuta-anja) comecei a enxergar. Esse é, inclsuive, um dos motivos de eu estar aqui escrevendo esse texto sobre a história de uma das histórias mais tristes da minha vida.


Da esquerda para a direita: eu e tia-mãe l eu e dona Maria l Jão e eu (2012).

Pronto. Agora podemos voltar ao fatídico ano de 2007, quando algo ruim me aconteceu. Era 07 de setembro. Lembro-me bem, como se fosse hoje! Eu passei a tarde conversando com minha tia-mãe sobre meu primo-irmão (ambos éramos filha/filho única(o), de pais divorciados, morando na casa da vó), querendo saber onde estava, quando voltaria pra BH (uma vez que ele estava em outro estado) e o mais importante: como estava!


Havia um bom tempo que não o via e a saudade estava apertando em meu peito. Segundo minha tia-mãe (mãe biológica do primo-irmão), ele havia feito essa tal viagem, mas em breve voltaria...e voltou realmente, dois dias depois, apesar de ser de um jeito que eu jamais desejei.

xxx

Sábado, 8 de setembro. Acordei num salto. Ouvi um ruído vindo da sala da casa de minha vó-mãe. Era o irmão de Jão que estava falando ao telefone com minha tia-mãe. Era uma conversa ruidosa, quando de repente ele passou o telefone para mim. Tudo que ouvi naquele instante, que parecia não ter fim, foi: “vocês não podem fazer isso comigo. É meu filho. Vocês não podem enterrá-lo sem que eu o veja”. Nesse instante um buraco se abriu sobre meus pés e eu fui sugada não-sei-pra-onde.


Meu primo-irmão, amado, querido, amigo e companheiro havia simplesmente feito uma viagem sem volta. Ele morreu.

Ao escrever essas amargas palavras me deparo, neste breve instante, com o coração acelerado, como que revivendo momento de tamanha dor. Sim. Foi a primeira morte a me afetar profundamente. Ele era muito jovem. Muito bonito. Muito cheio de vida. Era meu brother e eu era sua sister. Primo-irmão se foi sem ao menos me dar a chance de vê-lo uma última vez.


O enterro foi no domingo. Foi doloroso. Sofrido. deixou um vazio.


xxx


Três meses depois, dezembro de 2007, vó-mãe não suportou a dor e também partiu. xxx


Sobre a morte de minha vó-mãe não sei manifestar aqui quais foram os sentimentos que me afloraram naquele dia. Até o mês passado eu não a via como uma mãe e sim como uma avó-ranzinha-machista-e-desleal por proteger "machos-alfa" em detrimento das mulheres. Mas hoje entendo que ela fez o melhor que podia naquele tempo. Ela me deu o melhor que podia, sendo a mãe, que não lhe cabia ser, para sua neta rebelde (sim! Eu era a rebeldia em pessoa).


Descobri recentemente que ela tinha 63 anos quando assumiu a responsabilidade de cuidar de uma criança que tinha 1/9 de sua idade!


Faço uso do espaço que me foi dado aqui no blog para prestar honrarias a ela por ter me dado algo valioso. Obrigada por ter sido minha vó-mãe-vó.


Da esq. para direita: vó-mãe-vó, Jão e eu ( 15 meses antes da partida dela).


Xxx

Em dois mil e alguma coisa recebi a notícia abismal de que meu primo-amigo-de-infância, com o qual passava boa parte dos meus dias (dado o fato de que morávamos bem próximos um do outro) contraiu uma doença que alguns anos depois o mataria (em 2011, aos 27 anos de idade, aproximadamente).


Meu lamento até ontem foi o de não ter sabido (por excesso de preconceitos) conviver com ele após a descoberta do fato. Tinha medo dele. Na verdade, tinha medo do que ele carregava consigo. Mas hoje, tanto tempo depois e mesmo em planos diferentes, eu deixo nesse breve espaço de tempo, meu pedido de perdão pela ignorância. xxx

Aproveito as poucas linhas que ainda me restam nesse triste, porém importante texto, para me despedir, simbolicamente dessas pessoas (primo-irmão, vó-mãe-vó e primo-amigo-de-infância). Neste fim de ciclo eu libero as dores. Eu libero de meu peito e mente todo e qualquer sentimento de apego que ainda tenha por vocês. Sigam seus caminhos que eu também seguirei o meu. Me perdoem pelas faltas. Vão em paz. Encontrem a Luz. Assim seja, assim é.


Foto: wix.


xxx


No mais, é isso, mulherada IN-CRÍ-VEL! Como a Vida é linda, não é mesmo? Como uma paciente e amável professora, Ela está sempre pronta a nos ensinar. Quando me propuz ao exercício da escrita, como forma de homenagear essas pessoas que de maneira especial fizeram alguns dos meus dias nublados um tanto melhores, aprendi uma valiosa lição:


PARA O NOVO VIR, O VELHO TEM QUE IR.


Deixo aqui o registro de uma experiência dolorosa e de superação, e claro, uma pergunta (em homenagem à querida Amélia, que sempre diz que eu respondo às perguntas dela com uma reflexão em forma de pergunta!): O que você carrega na sua mochila que a torna tão pesada, difícil de carregar? Com o ano chegando ao fim vale refletir sobre a beleza e a alegria de deixar para trás o peso-morto, para seguir nesta jornada incrível chamada VIDA, com mais leveza e, claro, aberta para o novo que urge!


Um beijo. Até qualquer dia. E tchau.


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>Produção e diagramação: Dalila Pires<


 
 
 

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