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Novos caminhos

Gente, acho que se formos parar para analisar todos os caminhos que já percorremos em nossa vida, vai surgir, pra muita gente um compilado mucho loco, no qual eu certamente me enquadro.


Crédito foto: MonikaP - Pixabay.

Quando somos crianças e adolescentes geralmente temos nossos sonhos e também agimos muito em cima dos desígnios de nossos pais ou das pessoas responsáveis por nós nessa época. Fazemos coisas, frequentamos lugares, acreditamos em verdades entregues em embalagens de presente pelas pessoas que mais amamos. Criamos planos, expectativas de vida e, quando chega a fase adulta, muitas dessas coisas se evaporam. Nessa hora, para nossa tristeza, muitas vezes passamos longos períodos com vazios existenciais. Aquele sentimento que há um espaço no peito a ser preenchido nos acompanha do despertar ao adormecer.


Mas por onde anda o fio da meada de minha vida, Deus meu? Numa sequência de encruzilhadas, qual decisão tomar a respeito da direção a se caminhar? E tome mais vazio. Acredito que isso nos acontece porque crescemos aprendendo português, matemática, história, geografia, biologia, química e física. E religião. Na maioria dos casos. Mas falta-nos uma matéria muito importante, chamada autoconhecimento (conspiradorxs da Matrix têm argumentos fabulosos para tal desmotivação ao ensino do autoconhecimento ao ser humano. Na verdade, isso já nos foi dito por Platão há mais de dois mil anos atrás). E como escolher um caminho se a gente nem sabe mesmo se o que fazemos é realmente uma ação que vem de quem verdadeiramente somos? Quantos padrões repetimos por assimilar coisas que aprendemos mas que não necessariamente concordamos? E, pra ficar mais complicadis, a maior parte daquilo que repetimos foi assimilado pelo nosso inconsciente na primeira infância, na vida intrauterina ou, até mesmo, em honrarias ancestrais, como nos apresentou Bert Hellinger, a partir da constelação familiar.


Crédito foto: Ely Penner - Pixabay


E olha só a volta que a vida deu com a Eunice. Ela tem 39 anos e nasceu em uma cidade do interior de Minas Gerais. Morava na zona rural, filha de uma família grande, tendo oito irmãos vivos. Apesar de sua família ser católica, a religião nunca foi algo muito presente em sua vida. Contudo, durante a adolescência, para poder estar próxima de uma amiga, que tinha uma irmã freira e que vivia convidando-a sempre para ir à igreja, ela começou a se aproximar mais da vivência católica. Como Eunice possuía algumas experiências de conflitos familiares e abusos, ela enxergou que se tornar freira poderia ser uma boa alternativa para a sua vida. “Essa minha amiga me convidava tanto para ir à igreja que comecei a ir para agradá-la e ficar livre da insistência, mas aos poucos conheci o ambiente e vi ali uma oportunidade de sair daquele ambiente tóxico em que eu me encontrava e estudar, crescer enquanto ser humano e fazer o bem para as pessoas. Resolvi entrar para a Congregação Servas de Santa Teresinha e fui morar em Cajobi, interior de São Paulo, fiquei lá um ano e meio, mas não me adaptei ao estilo da Congregação e decidi retornar para casa”, afirma.

Ainda determinada com sua escolha, Eunice, após um ano de maturação, foi morar em Sobradinho/DF, e se juntou à Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. “lá comecei minha caminhada novamente para me tornar irmã , fiz lá meu aspirantado e parte do postulantado, depois vim para BH onde terminei o postulantado e fiz o primeiro ano do Noviciado. Fui para Lavras, retornei para BH, fiz os votos e me tornei Irmã da Piedade”, diz ela que permaneceu nessa trilha por 12 anos.


As melhores recordações desse período são dos momentos de amizades com as irmãs que viveram com ela, de experiências fraternas, de aprendizagem no trabalho, de crescimento espiritual e dos retiros espirituais anuais. Por outro lado, nesse mesmo período, seu pai faleceu e dessa situação, emergiu um momento de sombras. “Durante todo este percurso muitas coisas aconteceram, perdi a pessoa mais importante da minha vida, meu pai, tive que amadurecer muito, aprendi a me superar a cada dia, cresci enquanto ser humano, enquanto mulher, também morreram muitas coisas em mim, tive grandes crises de depressão”, comenta.


Com o passar do tempo, Eunice começou a perceber que a vida religiosa não a estava fazendo feliz e começou a meditar na ideia de abdicar dessa escolha. Para chegar a essa decisão, ela fez terapia, retiros espirituais, conversou muito com seus orientadores e refletiu muito ao longo de quatro anos. “Tenho um espirito livre e a vida religiosa tem um espirito controlador, te dá uma liberdade, mas não do tipo que eu preciso. Com o amadurecimento fui percebendo que meus desejos atuais são outros, tenho desejo de ter minha casa, meu cantinho, não mais viver em comunidade que é um dos pilares da vida religiosa, quero focar em realizações pessoais, quero poder fazer minhas escolhas, não que o outro deixou de ser importante ou que passei a ser egoísta, pelo contrário quero dar mais qualidade ao que fizer pelo outro, quero escolher as causas pelas quais quero me voluntariar”, diz.


Atualmente ela está estruturando sua atuação profissional como contadora, na cidade de Contagem. Sua maior vontade é ter êxito na vida “como uma mulher bem sucedida, uma profissional competente, uma pessoa comprometida com as pessoas, com a sociedade, fazendo o bem, enfim continuando a missão de fazer o bem, porém de forma livre, de acordo com os valores do meu coração”, conclui.


Crédito foto: Eunice (arquivo pessoal )

Toda mudança nos tira de uma zona de conforto e traz consigo algumas instabilidades. Contudo, mesmo estando ainda em uma fase de adaptação, Eunice hoje afirma estar feliz por ter dado o primeiro passo.


Olha só que interessante. Hoje ela está “feliz”. Acredito que esse é o ponto. Devemos estar felizes. Lógico que haverão alguns dias de tristeza, mas quando o balanço anual pende para o lado da felicidade, para mim, é um indício de que estamos no caminho certo. E também um atributo do autoconhecimento. Se você tem dúvidas sobre o caminho por onde trilha, comece se perguntando se você é uma pessoa feliz. Como está seu coração e suas emoções na maior parte dos seus dias ao longo deste ano? E ao longo da última década?

Nosso coração é como uma gaivota. Ele sempre vai querer voar para outras regiões, procurando o melhor lugar para viver, a partir da melhor rota a se tomar. Ele nos pede isso. Basta abaixar o som externo e escutar o seu interior.


Hoje sei quantas voltas a minha vida já deu. Muitas delas admito terem me levado para caminhos indesejados ou obscuros. Mas, a partir do momento em que tomei posse da minha pequena lamparina, comecei a tatear a trilha da estrada da minha vida, aquela que eu assumi trilhar quando fui chamada a este mundo. Aos poucos, esse fogo vai ficando cada vez mais estável, mudanças surgem e a vida passa a fazer mais sentido. Foi assim comigo, foi assim com a Eunice e com muitas outras pessoas.


Crédito foto: Sasin Tipchai - Pixabay.

Não se deixe levar pelo desejo dos outros, não se deixe levar pelas crenças dos outros. Fazendo um mix com duas frases de sabedoria (já perguntei aqui e os Mestres já me autorizaram), eu digo hoje: Conheça-te a ti mesmo e tudo mais vos será acrescentado.


Até o próximo texto. A gente se encontra pelo caminho.



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