O sagrado ofício de escrever
- Mônica Maria

- 4 de mai. de 2020
- 5 min de leitura
Lá pelo idos séculos V e VI, viveu na Itália um monge chamado Bento de Núrsia, cuja vida monástica obteve grande destaque proveniente dos hábitos que ele criou em seu monastério, compilados na “Regra de São Bento”. Deste homem de grande importância na história cristã e inspirador do movimento Templário, veio a intuída expressão: “Ora et Labora”, em português, “Ore e Trabalhe”.

Crédito foto: Dalila Pires
Primeiro de Maio é mundialmente conhecido como o dia do Trabalhador. Mas também é dedicado ao Dia da Literatura Brasileira (homenagem a um dos mais importantes autores do Romantismo Brasileiro, José de Alencar). Para mim, a literatura pode ser considerada uma forma de oração, afinal de contas, ela pode nos conectar com mensagens vindas de cima, trazendo ao mundo significados capazes de tocar e transformar pessoas de todas as épocas e lugares. Sendo assim, o profissional da literatura, ora e labora. Seja fazendo verso e prosa, para contar histórias reais ou inventadas e transmitir sentimentos; seja documentando a vida, trazendo informação, marcando um tempo, atendendo a uma coletividade, a partir da observação ou das próprias vivências.
A Marcela e sua esposa, Mel, passaram pela experiência da Maternidade Lésbica em 2017. Durante a gravidez de Mel, Marcela começou a pesquisar a respeito do assunto e ficou muito incomodada ao constatar a escassez de conteúdos que atendesse ao público do qual era parte. Havia uma verdadeira lacuna editorial. Daí veio a ideia de publicar um livro que abordasse temas relevantes e, assim, ajudar outras mulheres que irão vivenciar situações às quais ela passou.

Crédito foto: da esq. p/ direita: Melanie, Iolanda, Bernardo e Marcela.
“No livro relato desde questões de ordem burocrática, sobre como funciona o tratamento de fertilização in vitro, como é o atendimento a duas mães em uma clínica, como funciona um banco de sêmen, a mãe que não gestou pode amamentar; e também de questões emocionais, por exemplo, como me sentia quando me excluíam da maternidade, como foi conviver socialmente não estando grávida e se preparando para ser mãe, como foi a relação com a família, as ansiedades, medos, dúvidas, entre outras”, afirma Marcela. Assim, nasceu o livro MAMA: um relato da maternidade homoafetiva.
Marcela está desenvolvendo outros volumes, que são uma complementação da vivência materna. “Um deles é a continuidade do MAMA. "Agora meus filhos estão com 1 ano e meio, seguem mamando nos peitos das duas mães, já vivemos muitas coisas desde a hora do parto e tenho muito o que relatar sobre este princípio de vida real da maternidade lésbica. O outro é um livro infantil também sobre famílias de crianças com duas mães”, comenta.
Assim como Marcela, Ludmilla viu em uma experiência de vida, a oportunidade de escrever um livro, também sobre maternidade. Em 2016, ela foi fazer uma consulta de pré-natal com a enfermeira obstetra, Miriam Rego, que atuou ativamente na defesa do parto natural humanizado em Belo Horizonte. Ludmilla ficou próxima de Miriam e recebeu dela o convite para escrever um livro que já estava nos planos da Equipe Bom Parto, na época liderada por Miriam. Nasceu então “Histórias de parto: um novo olhar sobre a experiência de parir”.

Crédito foto: da esq. p/ direita: Míriam Rêgo, Ludmilla e Benicio
O livro é um compilado de histórias reais, escritas pelas próprias mulheres que viveram suas experiências e que foram assistidas pela Equipe Bom Parto, entre os anos de 2015 e 2017. “Livro este que contribui para a mudança da história do nascimento e do parto, pois tais experiências ajudam a construir e a fortalecer uma nova forma de nascer ou retomar uma forma já existente. São histórias ricas e reais, de fertilização in vitro, trombofilia, bebês pélvicos, cartas para os filhos, relato de marido, Vbac's e muito exemplo de encorajamento, imaginário e cultura popular, além de muita emoção”, diz Ludmilla.
A autora possui também uma participação no prefácio do livro “Ressignificando-se como mulher no parto: a experiência da mulher que participa dos movimentos sociais pela humanização do parto", oriundo da tese de doutorado de Miriam Rego*.
Além das produções baseadas nas experiências reais, a literatura é pujante nas histórias de ficção. Poder dar vida a personagens imaginários e construir para eles um palco com interações é uma arte.

Crédito foto: freepik
A partir de um momento difícil que passou em decorrência de uma forte depressão, Patrícia viu na escrita um caminho de luz. “Sempre li muito, e durante esse processo difícil, não foi diferente. A única coisa que me dava força era a leitura até descobrir as plataformas de escrita, onde percebi que além de ler, eu podia escrever histórias para compartilhar com as pessoas. E isso foi o start que faltava para me reerguer”, comenta. A primeira obra veio em 2014 e, de lá pra cá, Patrícia já escreveu 04 romances: Vidas Paralelas, Vidas Entrelaçadas, Fuga e Lago Negro; 02 livros de poema: Série Encantos; e 05 títulos infantis: Escorregador Colorido, Esconde-Esconde, Luneta Mágica, Menino Passarinho e Pensão Monstruosa.

Crédito foto: Patrícia Freitas
Para Patrícia, escrever está entre as coisas mais fundamentais da sua vida. “Além de ser vida, como o ar que eu respiro, escrever é despir-se de (pré)conceitos para retratar a vida e as pessoas. É colocar-se no lugar de outrem, é dar voz”, afirma a escritora que atribui como principal importância da literatura, o poder de empatia que essa arte possui.
Escrever é trazer a vida para o papel (ou para a tela, em tempos mais tecnológicos). Trata-se de um exercício, apesar de delicado, de intensa dedicação. É um exercício de transformação. É como moldar uma argila ou lapidar uma pedra, esculpindo-as. Só que aqui, são esculpidos os registros de vida e as ideias que derivam deles. É um exercício de inspiração, mas também é um exercício de dedicação. As palavras não se unem por conta própria. Prova disso são as quase quatro horas que passei sentada para dar vida a este texto que homenageia escritoras, pelo Dia da Literatura Brasileira. E, pra arrematar com chave de ouro, deixo aqui um poema simples e brilhante, escrito por Cora Coralina:

Boas leituras e até o próximo texto!
Ah! Você consegue acessar os conteúdos citados aqui por meio dos links abaixo:
1) MAMA: um relato da maternidade homoafetiva. ( www.ditalivros.com.br ou pela Amazon).
2) Histórias de parto: um novo olhar sobre a experiência de parir: https://www.bomparto.com, ou pelo contato de telefone e de Whatsapp com a Bárbara: +55 31 7534-7448).
3) Vidas Paralelas, Vidas Entrelaçadas, Fuga, Lago Negro, Série Encantos, Escorregador Colorido, Esconde-Esconde, Luneta Mágica, Menino Passarinho e Pensão Monstruosa: (Patty Freitas entre Prosas & Versos e Celeste e Amigos (infantis) ou através da Amazon.
*Miriam Rêgo. "Enfermeira . Natural de Itabira. Era mestre e doutora em Enfermagem, tendo sido um dos maiores nomes da Enfermagem Obstétrica no Brasil. Pioneira na humanização do parto no país. Na Prefeitura de Belo Horizonte foi cofundadora do movimento BH pelo Parto Normal. Também atuou durante muitos anos como professora e coordenadora do curso de Enfermagem da PUC Minas, além de atuar como Enfermeira Obstétrica no Hospital Sofia Feldman. Coordenava a equipe Bom Parto, que é formada por um grupo de Enfermeiros Obstetras que busca estimular o parto normal e o empoderamento feminino. Incansável na luta por uma assistência humanizada.
Infelizmente, não resistiu a um mieloma múltiplo descoberto recentemente e faleceu no dia 13 de outubro. Sua voz doce e suave, com certeza, deixará muitas saudades naqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela." Nota publicada pelo Coren.
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Produção e diagramação: Dalila Pires



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