Parto em meio à pandemia
- Mônica Maria

- 20 de abr. de 2020
- 6 min de leitura
Aline, Daniela e Sara. Elas não se conhecem, embora partilhem algo muito precioso em comum: estão à espera de um bebê. São, assim, peça fundamental neste milagre da natureza. A maternidade por si já é um estado excepcional, que possibilita profundas transformações na alma de uma mulher. Não obstante, mudanças emocionais e comportamentais se fazem presentes desde o período da gestação. Arriscaria a dizer que nove meses poderiam até ser pouco tempo para assimilação de tais mudanças, mas a natureza é perfeita em suas escolhas. O que muda são nossos hábitos, que fazem com que muitas vezes não caibam no tempo, todas as coisas com as quais nos comprometemos. Mas... apesar da famosa correria do dia-a-dia dos tempos modernos, para essas três gestantes, ele, o Tempo, se abriu às novas vidas que estão chegando.

Crédito foto: drobotdean/ Freepik
Há um mês o Brasil vive uma situação de isolamento social, em decorrência da pandemia provocada pelo coronavírus. Não há como negar que essa mudança radical no comportamento da sociedade afetou também a vida dessas, e de outras milhões de grávidas não só no Brasil, mas em todo o mundo. A Aline, por exemplo, que está esperando o terceiro filho (o sexo do bebê será descoberto na hora do parto, que está previsto para o próximo dia 23!), há menos de um mês optou por fazer um parto domiciliar. “Quando descobri esta terceira gestação, eu já sonhava em ter um parto natural domiciliar, mas por ser uma experiência completamente nova - já que os outros dois partos anteriores foram hospitalares - eu fiquei com um pouco de receio e acabei desistindo. Porém, com a quarentena e o distanciamento social necessário, repensei em ter o meu tão desejado parto domiciliar. E foi apenas com 36 semanas de gestação que decidi e fui atrás de mais informações sobre este tipo de parto e depois em busca de uma equipe especializada em parto domiciliar”, diz.

Crédito foto: Aline Ricci
O maior medo da Aline era o da contaminação pela Covid-19, dentro de uma unidade hospitalar. Esse é um tipo de medo muito comum entre as gestantes, e além dele, surgem outros do tipo “Como irei me cuidar sozinha?”, “Se pegar a Covid-19 vou poder amamentar?”, “Quais as repercussões para o feto?”, “Sou do grupo de risco?”, “Vou poder ter acompanhante na hora do parto?”. Perguntas assim têm ocupado tempo nas consultas da obstetra Cíntia Carvalho. Além do atendimento padrão, Cíntia, que também possui formação como psicóloga, tem se ocupado em informar e tranquilizar suas pacientes nesse momento de grande instabilidade emocional. “Me preparei para conscientizar sobre a importância do isolamento social e higienização necessária, para amenizar a implicação psíquica e social de não poder ter visitas liberadas no hospital e também para limitar as visitas em casa. O momento é de festa, mas para podermos comemorar depois, precisamos cuidar da nossa saúde e dos outros”, afirma.

Crédito foto: Cintia Carvalho
Partos domiciliares também tiveram que se adaptar à nova realidade. A doula Aline Teixeira, por exemplo, passou a prestar atendimentos virtuais às gestantes e puérperas. “Me preparei e continuo em constante atualização, de olho nas diretrizes atualizadas lançadas pela OMS, Ministério da Saúde e órgãos internacionais. Além disso, acompanho as discussões de profissionais e entidades reconhecidos do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento. Alterei algumas formas de trabalho para garantia de segurança para a saúde da mãe e do bebê, para os profissionais de saúde que prestam assistência ao parto e nascimento, para mim, nossas famílias e toda a sociedade”.

Crédito foto: Aline Teixeira
Aline, inclusive mobilizou junto a outras doulas, a criação da Semente, um Coletivo de Doulas (saiba mais), onde oferecem alguns serviços gratuitos para alcançar futuras mães que estejam com dúvidas em relação a como conduzir a gestação, fazer o parto e cuidar do bebê em meio ao momento de pandemia.
Assim como a Aline gestante, Daniela também irá ter um parto domiciliar. Ana Clara está prevista para chegar ao mundo dentro de alguns dias! Essa também é a terceira gestação de Daniela, que já é mãe de Flora (3 anos) e Francisco (1 ano).

Crédito foto: Daniela Coelho (da esquerda para a direita, Flora, Daniela e Francisco)
Para Daniela, por causa do coronavírus, o parto da Ana Clara será totalmente diferente do que foi planejado no começo da gravidez. “Mudou tudo, da noite pro dia. Tinha pensando em ter uma fotógrafa, já que não tive nos outros partos, tava tudo certo. Mas acabei cancelando pois estamos ficando isolados o máximo possível. Tinha pensado num parto mais íntimo, eu, meu marido e meus filhos. Vamos ter um parto domiciliar. Minha mãe viria pra me dar assistência no puerpério. Mas aí com o isolamento tivemos que acolher minha sogra que mora sozinha e é idosa, e minha irmã, que vai me auxiliar com as coisas da casa depois do parto, já que minha mãe não vem mais. A ideia do parto mais íntimo teve que ser readaptada”, comenta.
No começo da pandemia, Daniela estava mais apreensiva, pois consumia muitas notícias alarmantes do avanço da Covid-19. Até que chegou o momento em que ela percebeu o quanto isso a estava prejudicando e optou por se distanciar desse tipo de conteúdo e levar com mais tranquilidade a gravidez. O medo agora, é o básico, de todas as gestações. “Acho que posso ter 20 filhos e o medo sempre será um sentimento presente. É um momento mágico, mas cheio de incertezas. Essa semana tenho refletido muito sobre o medo, e percebi que o medo de sentir dor está muito forte em mim. E é um medo tolo, pois a dor é inevitável. A dor faz parte do processo. O medo faz parte. Por mais que nesse momento somos protagonistas, não temos o controle de nada, e isso acaba gerando uma ansiedade sobre o incerto. Aí vem o medo junto. Nós mães nos cobramos muito”, diz.
Se para Aline e Daniela a experiência já é bem conhecida, para Sara, tudo é novidade. Marinheira de primeira viagem, ela aguarda a chegada de Olga, que está prevista para o começo de julho. A ansiedade, bate forte e também o medo. “Eu sinto bastante medo em relação ao parto, por ser minha primeira gestação, por mais que eu busque informação, por mais que eu converse com a doula, por mais que eu assista a documentários, eu ainda tenho medo de na hora H não conseguir, ou medo de ter alguma complicação”, diz ela, que programou um parto humanizado em uma casa de parto do SUS.
Crédito foto: Sara Tresseno (da esquerda para a direita, Sara, Rodrigo e Alex)
Todas as três gestantes que conversamos estão muito atentas em relação aos cuidados necessários, tanto durante a gestação, o momento do parto quanto após o nascimento. “Estou isolada em casa a mais de 20 dias, sem receber visitas, só saí na rua para fazer alguns exames do pré-natal e mais nada. Minha família também está apreensiva, não vem me visitar com medo de me transmitir o vírus, temos nos falado bastante por chamada de vídeo, mas zero contato físico, isso tem me deixado aliviada e ao mesmo tempo ansiosa e nervosa”, desabafa Sara.
Para se proteger, Daniela, que está com 39 semanas de gestação, deixou de fazer o último ultrassom e conseguiu agendar as consultas de pré-natal para um intervalo maior que sete dias. E em casa, todos seguem colaborando. “Aqui estamos fazendo o distanciamento social. Quando precisamos de fazer compras vai uma pessoa só, com máscara e álcool. Quando chega, tira toda roupa e sapatos e vai pro banho. E as sacolas ficam na área de serviços. Tudo é lavado na hora com água sanitária antes de entrar na casa”, afirma.
Aline mora há cinco minutos da mãe e costumava visitá-la toda semana. Programa esse que não é mais feito. Ela e o marido, Thiago, inclusive avisaram aos familiares sobre a restrição de visitas após o nascimento do bebê. “Quando avisamos toda a família sobre não recebermos visitas no pós-parto, todos entenderam. É preciso que todos respeitem o isolamento, assim poderemos sair mais depressa da situação atual”, diz.
Crédito foto: Aline Ricci (da esquerda para a direita, Leonardo, Emilia, Aline e Thiago)
Aline, Daniela e Sara. Três mulheres que são uma amostra de um momento único e histórico vivido por gestantes em quase todos os países: o parto em meio à pandemia. Em comum, elas têm também a crença de que se todos tomarem os devidos cuidados e se informarem bem, essa tempestade irá passar e dias melhores virão. Sendo que em cada novo dia, elas estarão prontas para acolherem seus filhos e filhas com todo o amor do mundo.
Um ótimo parto a todas as gestantes e um feliz (re)nascimento a todos os seres humanos! E até o próximo texto.
Gostou dessa matéria incrível? Então que tal ser retalho da colcha mais linda e colorida do pedaço? Clique aqui e veja como contribuir, com apenas R$9 por mês, para que o Coletivo Colcha de Retalhos siga firme em seu propósito: dar voz a mulheres que estão fazendo deste, um mundo melhor!











Comentários