Seu autoamor anda baixo?
- Mônica Maria

- 14 de fev. de 2021
- 6 min de leitura
Em um passado não muito distante, hoje seria um animado domingo de carnaval para o povo brasileiro. Contudo, em meio a uma pandemia desenfreada, acredito que muita gente, assim como eu, estava sem saber se o carnaval seria nesta ou na próxima semana. Mas, mesmo sem carnaval, hoje é um dia de celebração em muitos países, afinal, 14 de fevereiro é o Dia Internacional do Amor. Neste site, existe um artigo interessante sobre as possíveis razões pelas quais foi instituído esse dia, sendo que a principal está ligada à vida de São Valentim. Sem mais delongas, fiz essa introdução para falar do amor mais importante de todos, que ainda é pouco divulgado: o autoamor.

Foto: Wix
Curiosamente, comecei falando sobre carnaval, que é marcado pelo ritmo do samba; e o samba, como diz o poeta Vinícius, “nasceu lá na Bahia”. E pra falar de autoamor, vou falar da ausência dele, o que faz uma mulher se afundar em um relacionamento abusivo e também vou falar da conquista deste sentimento, trazendo a história de uma baiana, que acaba se repetindo na vida de muitas brasileiras. Conheci a Natalice, há alguns meses, a partir do trabalho que o Coletivo Colcha de Retalhos desenvolve com empreendedoras periféricas. Ela mora em Alagoinhas, cidade do Agreste da Bahia, já quase na divisa com Sergipe.
Em 2001, Natalice começou a namorar o seu futuro ex-marido, quando se conheceram no cursinho pré-vestibular. Na época, ela estava com 21 anos e ele com 19. Na sequência, Natalice começou a estudar Turismo e ele, Administração. Nessa época, seu estilo de vida não agradava o namorado e diversos fatores eram motivos para incômodos e desentendimentos. “Meu relacionamento desde o início já apresentava indícios de abusivo, porém por não ter conhecimento e também por estar apaixonada não via como abuso o excesso de ciúmes, a implicância com roupas, amizades e até mesmo brigas por causa do curso que eu fazia e tinha que viajar para fazer trabalho da faculdade. Ele fazia Administração e era um curso mais de sala de aula, então sempre que eu viajava a gente brigava”, diz.
Os atritos contínuos fizeram com que Natalice terminasse o relacionamento pouco tempo depois. Mas ele, insatisfeito, a implorou que voltassem. Ela aceitou e, daí, ficaram noivos e três anos depois foram morar juntos, em Feira de Santana, onde começaram a relação de casados. Em 2005, sua filha nasceu. O momento era de muita instabilidade financeira e brigas constantes. Nessa época, sua mãe foi ficar um tempo com ela, para ajudar na gestação e nos cuidados com a neta. Mas os desentendimentos com ele eram frequentes, o que fez com que sua mãe fosse embora. “Ele não queria trabalhar empregado, cada dia foi ficando mais difícil, morávamos de aluguel e vivíamos da venda de produtos naturais. Ele era muito ignorante com minha mãe e ela acabou voltando para o Piauí com meu irmão, eu fiquei muito triste e sozinha” comenta.
A barra estava pesada, sem sombra de dúvidas. E aí, é curioso e bem batido um ponto que, a meu ver, infelizmente contribui para aumentar a infelicidade das mulheres brasileiras: a maneira como muitas igrejas evangélicas conduzem seus seguidores. Ao invés de auxiliarem as mulheres que sofrem, identificando a toxicidade da relação, muitos líderes fazem vista grossa para o perigo que mora dentro de casa. Atitude esta que deixa muitas esposas e filhos nas mãos de homens desequilibrados e perversos. Não à toa, o Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). “Nessa época já estávamos na igreja evangélica, e os pastores sempre me aconselhavam a ter paciência, orar e Deus ia mudar ele, mas isso não aconteceu”, fala Natalice que, felizmente não chegou a sofrer violência física.
Mas sabemos bem que existem outras formas de violência. E estas matam lentamente, a partir de injeções de angústia no coração. Insatisfeita com a vida, Natalice pediu o divórcio pela primeira vez em 2013. O então marido, não aceitou e começou a fazer chantagens emocionais, colocando empecilho em relação à criação da sua filha. “Ele dizia que não ia deixar eu criar nossa filha, e que eu não tinha condições de criar sozinha. Os pais dele também falavam que eu tinha que continuar casada, para criar minha filha”, alega. E então, Natalice continuou vivendo a opressão do casamento por mais alguns anos. Em 2017, ela enfim tomou coragem de dar entrada no pedido de divórcio, com a ajuda de uma amiga. Mas a vida ainda preparou mais uma prova para ela. “Eu resolvi dar entrada no divórcio através da ajuda de uma amiga, mas tive que parar porque ele sofreu um atentado de morte no trânsito e tivemos que sair de Feira de Santana e retornar para Alagoinhas. Tive que fechar meu comércio e desfazer tudo que estava planejando. Por causa disso, minha vida virou um inferno, fui morar com meus sogros”, desabafa.

Foto: Pixabay
Daí pra frente, o que estava ruim, ficou ainda muito pior. “Minha saúde física e mental foi só piorando, fiquei alguns meses morando na casa deles até conseguir alugar uma casa e voltar a trabalhar, mas o casamento já estava acabado, eu não sentia mais nada por ele ,a não ser tristeza e vontade de morrer. Então percebi que estava cada dia pior, crises de ansiedade, pânico, depressão, esquecimento, perda de peso, queda de cabelo”, afirma.
Mas o lado bom do fundo do poço, minha gente, é que dali não se passa. A Natalice, por mais ferrada que estivesse, teve sabedoria e inspiração de olhar para cima e ver que existia luz apesar da escuridão. E essa luz a convidava a se movimentar e sair do fundo do poço. “Foi quando decidi sair de casa em junho de 2018. Fui morar em uma casa emprestada de uma prima, levei minha filha e algumas coisas de casa”, comenta. Seguindo a linha cantada pela maravilhosa Gal, agora ela foi recomeçar. Dali pra frente, ela foi mudar.

Ainda assim, mesmo com ela tomando a decisão de sair de casa, o seu ex-marido não quis aceitar a separação. “Ele sempre fez chantagem emocional, dizendo que eu estava destruindo a vida dele. Mas graças a Deus dei entrada no divórcio em 2019 e ele resolveu aceitar. Agora em 2021 saiu a sentença”, diz.
Na virada do ano, Natalice fez uma postagem, mostrando duas imagens: uma de quando ainda estava casada e outra depois de ter se separado. Essa foto, chamou muito a minha atenção. Como dizem por aí, uma imagem valem mais que mil palavras, basta olhar para as duas fotos e perceber a disparidade da sua vida, nos dois momentos.
Foto: Natalice Barbosa
Então minha gente, o ponto é esse: identificar o que nos faz mal e agir caminhando na direção oposta. Muitas vezes seguimos naquela trilha para não desapontar as pessoas que estão ao nosso redor, ou por aceitarmos convenções sociais que na verdade são criadas por seres humanos, visando atender os próprios interesses. Muitas vezes, tomamos por verdade coisas que não são nossas e comportamentos que não somos nós. A Natalice conta que foi uma criança e adolescente alegre, cheia de vida, mas durante muitos anos, caminhou por uma trilha onde a escuridão era cada vez maior. A escuridão era tão grande que estava apagando a chama do seu coração.

Mas ela, que é uma baiana arretada, que começou a trabalhar aos 14 anos, vendendo cosméticos para ajudar a mãe, que trabalhou como ambulante, que foi vendedora de cuscuz, que conseguiu um emprego formal, mas foi demitida no começo da pandemia; mantém vivo o espírito de resiliência. Uma vez libertada dos grilhões de um relacionamento abusivo, Natalice consegue respirar de peito aberto. “Muitas mulheres não têm amor próprio porque não sabem o que é, não receberam conhecimento, acham que tem que amar o outro mais do que a si mesmas. Muitas não sabem ou não reconhecem o potencial que têm dentro delas, eu passei por isso”, conclui.
Desde que foi demitida no ano passado, Natalice tem um brechó em sua casa e vende também pelas redes sociais. Após todo esse período longe do autoamor, ela ajustou as velas e foi se reencontrar em uma atividade onde sente alegria em executar e que lhe dá o sustento para viver bem ao lado de sua filha. Convido vocês a acompanharem e divulgarem o trabalho dela no Instagram e no Facebook.
Fique ligada, mulher! E se você chegou até aqui, a mensagem que você assimilou neste artigo pode ser útil pra sua vida ou para a de alguma amiga (neste caso, compartilhe o texto com ela). Com determinação e de passo a passo, ampliamos nossa tomada de consciência rumo ao encontro com nosso eu. Um bom carnaval para todas nós! Cada uma na sua casa, acompanhando as lives das cantoras e dos cantores que gostarem.
Falando em música, eu deixo vocês com a fatal Gal e a música “Vou recomeçar”.
Um beijo, e até o próximo texto.
Você se identifica com o trabalhode empoderamento feminino que o Coletivo Colcha de Retalhos desenvolve?Então venha ser retalho da colcha mais linda e colorida do pedaço! Clique aqui e veja como contribuir, com valores a partir de R$10 por mês, para que essas ações se multipliquem na vida de dezenas de mulheres!
>Texto e diagramação: Mônica Veiga<



Muito obrigada pelo carinho, espero que outras mulheres acordem pra vida que existe dentro de casa uma de nós, grande beijo meninas.
Natalice que sua história seja de um "acorde Alice" para outras mulheres,fico muito feliz que conseguiu acordar a tempo antes de ser mais um número na triste estatística deste país. Com certeza aos poucos sua história e de sua filha tomará um rumo próspero,grande beijo. Um grande beijo está pequena grande mulher chamada Mônica,como capta a essência em seus textos e os trás para a nossa realidade.
Que história incrível! Feliz demais em saber que essa mulher maravilhosa conseguiu superar e se reinventar! Parabéns, moça! Que o seu exemplo possa ser seguida por outras mulheres!💝
História inspiradora...
Me emocionei bastante com cada detalhe!
Faz repensar a minha própria trajetória