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É justa toda forma de amor

Como explicar o amor? Acredito que, em todo o mundo, não exista estudos e pesquisas capazes de definir e taxar algo tão particular. O amor é uma virtude? Sim. Um arquétipo a ser atingido? Certamente. E, porventura, há deturpações de seu conceito? Também. Mas, parafraseando Jung, a melhor maneira de se tocar uma alma humana é colocando a própria alma em ação. E aí, meu amor, alma é alma. Independente de sexo.


Crédito foto: da esquerda pra direita, 1 e 2 @freepik e 3, wix.


Os padrões heteronormativos imperam (ainda) em nossa sociedade. Coisa, acredito eu, reforçada pelos homens (entenda homens igual a plural de seres humanos, pois muitas mulheres também embarcam nessa neurose) desde o surgimento da era cristã. Essa forma de dominação rende parágrafos e mais parágrafos que não vêm ao caso agora.


Voltemos ao amor e ao enlace de almas. Quando nascemos, trazemos conosco um propósito de vida, que pode se manifestar ou não (dependendo dos passos que damos para perto ou para longe do nosso coração). E, dentre as múltiplas experiências de se estar nesta vida manifestada, juntamente está a nossa experiência afetiva. Isto é um aspecto, de inúmeros outros que carregamos. Há pessoas que vão agir conforme uma maioria, pois isso tende a ser o melhor para elas. Mas há pessoas em que o melhor é se expressar e se relacionar de maneiras distintas. E a turma da massa, não tem nada a ver com isso.


Em um mundo dual, há a regra, mas também há a exceção. Afinal, se é dual, não é uno, não é absoluto. Um relacionamento heterossexual é biologicamente importante para manutenção da espécie. Mas a vida é mais que isso e temos inteligência suficiente para ordenar aquilo que nos é pertinente. Então, na prática, basta cada um viver a sua vida, cumprir o que lhe compete, buscando a felicidade (ampla e altruísta). De resto, tudo se ajeita... só que não é assim.


Talvez poucas pessoas saibam, mas o mês de agosto tem duas datas dedicadas à causa lésbica. No dia 19 de agosto, foi comemorado o Dia Nacional do Orgulho Lésbico e, no dia 29 de agosto (no caso, hoje!) é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Duas datas para uma mesma causa indicam o quanto é preciso falar desta pauta.


Crédito foto: @freepik


Como toda boa história pede uma boa personagem, hoje vou contar um pouco da história da Merli, mulher fiel a si, que seguiu seu coração, plantou sementes de amor e colheu/colhe frutos viçosos.


Crédito foto: da esquerda para a direita, Dora e Merli (arquivo pessoal).


Sempre tive certeza de ser livre pra amar. Saí de casa pra morar com uma namorada assim que fiz 18 anos. Foi tudo rápido e forte. Amadureci na luta em 1983". E a luta se fazia presente em todos os ambientes, inclusive no meio universitário. “Faculdade em 1985 e eu sendo eu. A turma me excluía de forma sutil. No trabalho era tudo ocultado”.


A Merli hoje tem 56 anos, é professora universitária, pós-doutora em comunicação, mãe do Pedro, de 28 anos, e casada com a Dora há trinta anos (no papel desde 2012). Isso mesmo, o Pedro é filho de duas mães. As duas se conheceram em uma agência de publicidade, onde trabalhavam, no Rio Grande do Sul. O relacionamento e a dupla maternidade foram construídos e enfrentados por elas em um momento ainda de muito pouca aceitação e quase nenhuma informação. “Abrimos muita estrada no facão". Seu desejo de ser mãe era algo muito forte. Isso em uma época em que não se tinha acesso ao método da inseminação artificial. Merli então engravidou de um ex-colega de faculdade. Além da Dora, ninguém mais sabia. “Se eu tivesse avisado alguém, certamente não teríamos o Pedro. Foi coragem, em uma época onde fertilização e outras coisas normais hoje, eram impensáveis. Tanto que há poucos relatos de dupla maternidade com filhos adultos. O nosso foi gerado, parido e criado por nós duas em 1992”, afirma Merli que fez um diário, narrando a vida da família, desde que soube da sua gravidez até os 21 anos do Pedro.


Crédito foto: Merli, Pedro e Dora (arquivo pessoal).


A dificuldade era grande e, por bancarem uma forma de vida pouco usual na época (e, embora melhor, ainda hoje), elas não tinham com quem partilhar os desafios e as dores. A família deu as costas no início. Tentavam negar e ocultar a realidade (sei mais ou menos como é, afinal é o que fazem hoje meus pais em relação ao meu relacionamento de oito anos com a Dalila). Mas voltando à Merli e à Dora, as duas foram aprendendo na marra em cada situação que lidavam. Desde a gestação, passando por atividades cotidianas como levar o filho ao pediatra e à escola. Tudo era novo e diferente. Mas, com muito amor e fidelidade a si, foram crescendo e estruturando a vida familiar e profissional. “Estávamos em início de vida profissional e financeiramente instáveis. Mas lutamos, estudamos e conseguimos dar ao Pedro amor e educação de qualidade. Ele faz doutorado em ciência política na Uerj e é parceiro de lutas”, conta.


Fico pensando e te convido a pensar também tudo que a Merli e a Dora tiveram que fazer e fazem até hoje para bancar a escolha de viver esse amor. Penso também em tantas outras mulheres que, com valentia foram, cada uma em seu lugar, enfrentando a opressão e abrindo os caminhos para que hoje consigamos ter um pouco mais de respeito e aceitação à diversidade humana. Fico pensando ainda em quantas mulheres abriram mão de si, de seus sentimentos, seus desejos, seus sonhos, para tentar se encaixar em um padrão social e viver a vida que outras pessoas desenharam para elas; abrindo mão de sua essência e da busca pela ampla realização da vida.


Se sonhamos com uma vida mais plena, o medo não pode vencer. Hoje as coisas já estão melhor, se formos comparar como eram há trinta anos. “Hoje os jovens são o que querem e fazem seu caminho sem medo. Eles têm apoio nas redes e na vida”, comenta Marli, que conclui que“Ser feliz é a meta. Faria tudo de novo: ser invisível em 1980 e casar no papel em 2012. E hoje ter 30 anos de amor e um filho de 28. Tudo deu certo no tempo certo. A sociedade foi obrigada a evoluir e a gente fez a devida pressão”.


Certamente muito já foi feito, mas há ainda muito a se trilhar para chegarmos em um nível amplo de respeito. Não pela causa lésbica, mas pela causa de todas as ditas minorias que ainda são vistas como inferiores ou degeneradas. E é por isso que datas ligadas a causas se tornam símbolos de força e coragem. Dessa forma, vamos marcando presença, buscando transformações e, geração após geração, expandindo o entendimento em prol de uma sociedade mais justa e fraterna. Até a próxima!


Crédito foto: wix.


PS: O título faz referência a uma música do Lulu Santos. Coloquei mesmo achando meio cafona, pois ele veio de imediato na cabeça na hora de decidir o que colocar. Então, respeitei-o. :)


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